Depressão resistente, mas também ansiedade, PTSD e outras perturbações podem ser tratadas com cetamina.
Depressão resistente, mas também ansiedade, PTSD e outras perturbações podem ser tratadas com cetamina.FOTO: D.R. / The Clinic of Change

Estudo português aponta para uso seguro de cetamina para tratar depressão

Tese de mestrado já defendida no ISPA avaliou 98 doentes com depressão resistente. Trabalho contou com orientação de David Nutt e Celia Morgan, referências internacionais nestes tratamentos.
Publicado a
Atualizado a

Um estudo português sobre psicoterapia assistida por cetamina, aplicado a 98 doentes com depressão resistente, indica o uso seguro da substância em contexto clínico. Segundo Paulo Cleto Duarte, responsável pela Clinic of Change, onde os trabalhos foram conduzidos, “não houve efeitos adversos não-descritos” e o medicamento mantém “um perfil de segurança bem estabelecido”, quando usado em contexto clínico e supervisionado. Os resultados serão apresentados amanhã, quarta-feira, em Lisboa, e debatidos por especialistas internacionais.

A sessão, que irá decorrer no auditório da sociedade de advogados PLMJ, reúne dois dos nomes mais influentes na investigação de tratamentos inovadores para depressão resistente: David Nutt, do Imperial College London, e Celia Morgan, da Universidade de Exeter. Ambos acompanharam a conceção do estudo português e validaram o trabalho académico que lhe deu origem.

Em Portugal, propõe-se o uso de cetamina através de programas clínicos estruturados, com avaliação psiquiátrica, acompanhamento psicoterapêutico e equipas multidisciplinares.

“O estudo foi feito por uma aluna de mestrado, já foi apresentado e defendido no ISPA, e foi aprovado com uma belíssima nota. Além disso, teve o envolvimento do David Nutt e da C.D. Morgan, que acompanharam e desenharam este estudo”, sublinha o responsável.

Um detalhe que, na aceção de Paulo Cleto Duarte – farmacêutico, cofundador da Clinic of Change e, no que ao estudo diz respeito, responsável por assegurar a organização da equipa e a articulação com os investigadores envolvidos –, confere ao trabalho três níveis de validação: interna, da equipa da clínica; científica externa, por David Nutt e Celia Morgan; e académica, pelo ISPA. Agora, salienta, só falta mesmo a revisão pelos pares, algo que não deve demorar muito, uma vez que a autora da tese já a propôs para publicação junto das revistas científicas e aguarda que a mesma aconteça – se tudo correr bem, em “menos de um ano”, crê Paulo Cleto Duarte.

Uma centena de doentes

O estudo analisou a evolução de 98 doentes com depressão resistente através de escalas validadas (ver abaixo), antes e depois de um programa de dez sessões de psicoterapia assistida por cetamina. Os resultados mostram reduções “clinicamente relevantes” em depressão, ansiedade e incapacidade funcional.

“Temos follow-up aos três, seis, nove e 12 meses. Cerca de metade dos doentes já completou um ano desde que terminou o tratamento, e os resultados mantêm-se consistentes”, sublinha Paulo Cleto Duarte, explicando ainda que “os doentes não continuam a tomar cetamina. O tratamento termina nas dez sessões. Depois disso, quando muito, podem fazer um reforço, mas não ficam em tratamento contínuo.”

Diz o responsável que a utilização de cetamina para fins psiquiátricos é feita off-label, já que o medicamento está aprovado apenas como anestésico. Paulo Cleto Duarte sublinha, porém, que o tratamento segue critérios definidos pelo Infarmed e pela Comissão de Ética. “Não houve efeitos adversos não-descritos… o perfil de segurança é bem estabelecido”, afirma.

Polémica internacional

A discussão internacional em torno da cetamina tem crescido, em parte, devido ao impulso político dado pelos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump incluiu terapias inovadoras para depressão resistente na estratégia nacional de saúde mental. A polémica nasce da dupla natureza da substância: um anestésico seguro em contexto clínico, mas também uma droga recreativa quando usada sem supervisão.

Paulo Cleto Duarte sublinha que, em Portugal, o seu uso se aproxima dos modelos da Noruega e do Reino Unido, onde a cetamina é integrada no sistema de saúde através de programas clínicos estruturados, com avaliação psiquiátrica, acompanhamento psicoterapêutico e equipas multidisciplinares.

O contraste surge com França, que mantém um enquadramento muito mais restritivo: “França avançou, mas sempre em ambiente hospitalar, com regras muito apertadas”, sublinha.

Amanhã, o trabalho português entra no circuito científico internacional e as expectativas são elevadas. “A expectativa é que o trabalho seja bem recebido, porque é sólido, tem dados, tem follow-up e foi validado academicamente. Não é uma opinião, é um estudo”, diz Paulo Cleto Duarte. “Ter o David Nutt e a Celia Morgan aqui é muito importante. Eles acompanharam o estudo, conhecem o trabalho e dão-lhe credibilidade”, conclui.

Como Foi Feito?

Os Pacientes

Idade média: 43 anos

Género: 51% mulheres

Patologia dominante: 63% com depressão resistente

Restantes: ansiedade, PTSD, perturbações alimentares, abuso de álcool e outras substâncias

Duração média do programa: 9,6 semanas

Número médio de sessões: 10

As três escalas

PHQ-9 – mede sintomas depressivos; redução média de 9 pontos.

GAD-7 – mede ansiedade; redução média de 8 pontos.

WSAS – mede incapacidade funcional; melhoria média de 8 pontos.

Todas são escalas internacionais validadas e usadas em investigação clínica.

Como funciona o programa KAP?

O modelo Ketamine-Assisted Psychotherapy (KAP) usado no estudo implica:

Avaliação inicial por psiquiatra;

Administração de cetamina por enfermeiro;

Sessões de psicoterapia por psicólogos;

Protocolo clínico KAP da Awakn/Solvonis

Monitorização com escalas PHQ-9, GAD-7 e WSAS

O que é Cetamina Off-label

Em Portugal, a cetamina é aprovada como anestésico:

O uso para depressão, ansiedade ou PTSD é off-label, isto é, quando empregada para este fim, está a ser usado para um fim (doença, idade, dosagem ou via de administração) diferente do aprovado na bula pelas agências reguladoras;

Cabe ao médico justificar clinicamente a utilização;

França usa cetamina apenas em contexto hospitalar.

Depressão resistente, mas também ansiedade, PTSD e outras perturbações podem ser tratadas com cetamina.
Droga psicadélica é recurso para saúde mental. “É animador poder oferecer algo novo”
Diário de Notícias
www.dn.pt