O Acordo Verde (o Green New Deal) europeu é fazível? Von der Leyen chamou-lhe o "homem na Lua europeu". Esta é uma metáfora particularmente feliz para resumir o que está em causa. Tal como nas missões Apollo, há 50 anos, o desafio é tremendo. Exige uma mobilização coletiva. Implica reinventar setores-chaves da nossa economia. Obriga a recorrer a tecnologias ainda em fase de desenvolvimento ou que nem sequer foram ainda inventadas. Mas é também um processo que será sustentado em decisões baseadas em evidências, como já referi. Terá cada um dos seus passos avaliado por estudos de impacto, não deixará ninguém para trás. Diria que o European Green Deal é não só fazível como um imperativo moral. E também uma nova oportunidade de prosperidade para a Europa. Se tivermos sucesso, este plano terá sido ainda mais importante do que as missões Apollo. A humanidade queria provar que era possível deixar o nosso planeta. Agora queremos provar que é possível preservá-lo..Isso é quantificável? Estão previstos investimentos de cem mil milhões de euros, nos próximos sete anos, para um fundo de transição que irá promover a convergência dos países e das regiões mais atrasados..Então está contente com os primeiros dias da nova comissão? Está no rumo certo com prioridades bem definidas? Estou muito contente e entusiasmada com os primeiros sinais. A presidente Von der Leyen prometeu que não iria perder tempo e cumpriu. E no caso do Green Deal fê-lo explicando claramente que não se trata apenas de um plano de ação ambiental e, sim, toda uma nova "estratégia de crescimento" para a Europa. Uma estratégia que será extremamente exigente, sem dúvida, mas que é o caminho certo para a Europa e para o mundo. Sobretudo, é a estratégia que corresponde ao mandato que nos foi dado pela maioria dos eleitores europeus e à exigência que milhões de pessoas nos têm feito nas ruas. Pegando nas palavras dela, "devolve mais do que retira, ao planeta, às pessoas e à economia". Pessoalmente, não posso deixar de ficar particularmente satisfeita, porque passa por muito do que tenho vindo a defender, tanto na carreira académica como na política: devemos tomar decisões sustentadas por evidências científicas, devemos ser ambiciosos e, simultaneamente, rigorosos..Esteve também presente na COP 25? Que conclusões tirou, avanços e recuos? Esta COP poderá estar a ser menos mediática em grandes declarações e compromissos. Mas isso não é necessariamente mau. Estamos a evoluir para uma nova fase, mais técnica, em que passámos a discutir de que forma vamos concretizar os compromissos. É sempre importante renovarmos ambições, mas ainda mais importante é concretizá-las. Nestes dias, em Madrid, uma boa parte da discussão concentrou-se num dos pontos que vinham já da COP 24, na Polónia, e que tem que ver com o artigo 6.º, relativo à forma como funcionarão os mercados internacionais de clima. Não poderemos, no futuro, ter um grupo de países fortemente comprometidos com o combate às alterações climáticas e outro, muito menos ativo nesse campo, a fazer concorrência desleal aos restantes..E custa muito mudar? Depende de conseguirmos desenvolver tecnologias relativamente baratas..Por exemplo? Não é certamente ir de barco para o Chile e do Chile para Espanha... Pois. A mobilidade é um dos bons exemplos. Estamos a conseguir resolver a mobilidade a nível da superfície com carros elétricos que são menos poluentes se a eletricidade for verde, mas, por exemplo, a nível dos grandes navios, da aviação, não temos alternativa. Temos de fazer mais investigação científica, inovação, para que haja uma solução para os aviões. Biocombustíveis já dão para pequenos aviões, mas não para aviões de grande porte. Temos de ter uma solução economicamente viável para conseguirmos continuar a deslocarmo-nos de avião. Senão, a alternativa é não viajar, mas não me parece que as pessoas estejam muito disponíveis para mudar o seu estilo de vida. Claro que alguma parte tem de ser mudada porque não podemos continuar a emitir deste modo. Mas temos de apostar muito no desenvolvimento, nas novas tecnologias, nas que já existem, porque há algumas que já existem e não estão a ser aplicadas. Estão a nível do laboratório..O hidrogénio? O hidrogénio, por exemplo. Sabemos quase tudo. Há instalações-piloto de pequena dimensão que formam o hidrogénio a partir da água, depois armazenam-no, depois usam-no em carros ou em autocarros, novamente para produzir eletricidade..Então porque não se aplica, é o peso da indústria? É. Para passar de uma escala pequena para uma de média dimensão e depois para o real é preciso investimento e, muitas vezes, não é logo produtivo. Quando se passa de uma pequena escala para uma escala intermédia não é para começar a produzir, é para ver como é que funciona aquela instalação. Depois, só quando o mercado se alarga é que o preço baixa..É o que está a acontecer agora nos carros elétricos. É. Portanto, é preciso um investimento inicial que não tem acontecido e, ainda, a criação da própria infraestrutura. Quando se fez a introdução do gás natural nos anos 1980 em Portugal e em Espanha, houve um enorme investimento público, até de fundos estruturais, para trazer o gás natural da Argélia, distribuí-lo, armazená-lo. Algo de semelhante é preciso fazer. É preciso optar se vai ser o hidrogénio, se outras. Ainda não temos a solução ótima, temos de continuar com a investigação e desenvolvimento. 2030 é já amanhã!.Há alguma coisa que já saibamos como? Na minha área vai ter como grande prioridade a sustentabilidade. A presidente anunciou vários fundos adicionais - que vão ser geridos até pela Dra. Elisa Ferreira -, para a transição energética, para a transição digital... porque a digitalização também pode ajudar, há muitas viagens que se podem evitar, a forma de gerir as fábricas, etc. A sociedade pode ajudar bastante, pode-se ficar a trabalhar mais em casa... Agora, estou preocupada com o Orçamento..Está preocupada com quê? Que haja cortes. Vamos ter o Brexit e vamos ter menos essa contribuição. Depois temos vários países que contribuem que não querem aumentar, pelo contrário, querem diminuir. Como é que nós vamos fazer face a todas estes desafios?.E crescimento do sentimento antieuropeu também não ajuda... É verdade. Como é que nós vamos fazer face a todas estes desafios que precisam de investimento? Estas negociações dos fundos europeus vão ser negociações difíceis e precisamos de fundos europeus bem financiados para que cheguem para as políticas regionais, a política agrícola, a ciência e inovação..E a Europa quer assumir a liderança... A Europa assumiu sem rodeios um papel de liderança mundial na ação climática. Queremos continuar a liderar e a influenciar o resto do mundo..Conseguimos fazer isto sem a China e sem os EUA? Continuam a fazer parte do Acordo de Paris. A China tem reafirmado o seu empenho no combate às alterações climáticas e tem também dado alguns passos que nos permitem, pelo menos, dar-lhe o benefício da dúvida. Já começaram a trabalhar nas bases de um mercado nacional de emissões. Sobre os EUA, temos ouvido dizer que planeiam deixar o acordo no próximo ano. Será muito mau para o mundo. No entanto, os EUA e as suas posições não se resumem a Washington. Existem muitos estados norte-americanos fortemente empenhados no combate às alterações climáticas. E o mesmo sucede na comunidade académica e científica, nas empresas. É claro que temos de usar todos os nossos meios para convencer os países mais reticentes. Os grandes emissores de CO2 têm de aderir a estes objetivos, porque não poderemos fazer muito sozinhos..É preciso acabar com esta ideia de que é possível continuar a crescer ou tem uma visão um pouco mais otimista? Há países que precisam de tirar as suas pessoas da pobreza, nomeadamente a Índia e parte da China. Só que, felizmente, já é possível começar a fazer isso de uma forma mais sustentável. Por outro lado, há países que já conseguiram separar o crescimento económico do aumento das emissões. É o caso da Suécia. É isso que a Europa tem de fazer - crescer ao mesmo tempo que diminui o impacto ambiental. Também depende do que se entende por crescimento..Em que termos? Acho que os termos é ter boa qualidade de vida, bons serviços públicos - boa educação, acesso a cuidados de saúde, bons transportes públicos - e ter qualidade do ar, qualidade da água, não ter impacto nas alterações climáticas. Este é o modelo que a Europa tem de desenvolvimento, não é o que tínhamos nos anos setenta e nos anos oitenta [do século XX]..Portugal ainda está muito agarrado a esses modelos de desenvolvimento? Ainda está um bocadinho, mas está a mudar, felizmente. Há algo que é preciso dizer: quando eu estava a falar no financiamento para os fundos regionais, para o fundo da agricultura, é preciso dizer que não é só importante o financiamento que vem, é onde é aplicado e como. Eu não estou muito fixada só no valor que vem para Portugal, mas sim em quais são as prioridades e a facilidade, a flexibilidade, as regras simples, o que é que se pode aplicar em inovação, na digitalização, nas alterações climáticas, numa agricultura sustentável... tudo isso é tão ou mais importante do que o valor..Como é que vê esse filtro no seu Alentejo? O Alentejo é uma região com um potencial enorme. É uma região limpa, com um potencial de energias renováveis fantástico e que eu espero que se mantenha assim, que não haja forma de arranjar uma agricultura muito agressiva que estrague a qualidade de vida do Alentejo..No entanto, é uma das regiões mais ameaçadas pelas alterações da temperatura. É. Felizmente que temos o Alqueva que ajuda, e tem sofrido e continua a sofrer uma desertificação, mas tem um grande potencial. No mundo digital, as cidades e as vilas do Alentejo têm uma qualidade de vida em que as pessoas podem estar a trabalhar ligadas. Se tivermos boas instituições de educação e de saúde, são regiões do mais bonito que há na Europa e, felizmente, ainda sem os problemas que muitas regiões têm de grande poluição, completamente estragadas do ponto de vista urbanístico e, portanto, com um grande futuro..O facto de haver uma mulher à frente da Comissão Europeia foi uma coisa que lhe agradou? A Comissão ainda é uma instituição com muitos homens, dominada pelos homens, principalmente nos cargos intermédios e de topo e, dentro destes, nos mais importantes. Termos uma mulher como presidente vai começar a mudar o ambiente..O que é que, de facto, pode mudar? Nas áreas em que depende só do mérito e do esforço, as mulheres estão já em igualdade. Vemos isso nas universidades, nas empresas, mas não nos boards. Temos nos professores, temos nos investigadores, temos nos professores auxiliares, mas já diminui muito nos professores associados e nos catedráticos. Aí, é a questão de as mulheres, por vezes, não terem tanta coragem para concorrer. O homem acha sempre que está preparado e que pode vencer. Depois, também há toda a conciliação com a vida privada, que é mais difícil..Isso, na Comissão também se verifica? Também, porque implica viagens, mudar a família. Em cargos de topo, tanto na vida académica, como nas empresas, como na política, as mulheres ainda estão em grande desvantagem em relação aos homens. Eu sou agora relatora pelo PPE daquela diretiva que está há muito tempo encalhada no Conselho, das mulheres nos conselhos de administração, e temos esperança...Vamos tentar negociá-la. O facto de termos uma presidente, e com o discurso que tem, pode ser que alguns dos países estejam a mudar de posição..O que já existe em Portugal? Sim. Aí estamos muito à frente, mas queríamos que isto fosse algo a nível europeu..Quem está contra? Culturalmente são mais os países nórdicos, é interessante. Porque têm muito a noção de que nestas coisas no setor privado nós não podemos interferir. Temos de mostrar que se nada for feito as coisas vão-se perpetuando. A questão das quotas na política é um mal necessário... Elas não têm muito o feitio de tentar arranjar um lugar na lista..O seu exemplo é um pouco ao contrário disso... entrou cedo num mundo de homens. Sim. Éramos só duas no meu curso de Engenharia. Nos concursos nunca me senti discriminada. Fiquei em primeiro lugar por mérito. Tenho de confessar que, talvez, se não têm sido as quotas, eu não tivesse sido deputada europeia. A Dra. Ferreira Leite precisava muito de uma mulher, com as características que ela queria, para um lugar. Ela convidou-me e eu estava hesitante, estava a gostar do que estava a fazer. Estava a trabalhar na Comissão e tinha gosto de estar lá - era mais na sombra, mas a luz da ribalta não me atraía. Esta é uma característica um pouco diferente dos homens..Exigia que se apresentasse a eleições, que fizesse campanha eleitoral... Exato. Eu estava a trabalhar na altura com o presidente Barroso. Quando fui dizer ao Dr. Barroso que tinha sido convidada - ia a chorar -, ele disse: "Eu não percebo as mulheres! Há muitos que choram porque querem ir para o PE e as que choram porque não querem!" Mas o facto é que fui para a política por causa das quotas..O atual PSD é um pouco uma guerra de homens, não é? É. É uma guerra de homens. É uma guerra de egos e de homens..Entristece-a? Sim, porque não nos dá a estabilidade necessária para desenvolver trabalho. Há uma coisa que eu acho é fantástica que é o CEN, o Conselho Estratégico Nacional, que eu tenho coordenado na área de ensino superior, ciência, inovação, inteligência artificial. Conseguimos um grupo fantástico de pessoas. Temos estado a trabalhar entusiasmados e olhamos para o lado e as pessoas umas contra as outras....A responsabilidade também é de Rui Rio? Não sei. Eu tenho um grande apreço pelo Dr. Rui Rio, pela sua honestidade intelectual. A honestidade do ponto de vista financeiro temos todos ou quase todos, mas a dele é muito intelectual. Ele tem os princípios e é inflexível. Não desvia em relação ao que pensa e à forma de estar na vida, e isso não é muito habitual. Estão habituados a que as pessoas se desviem do seu caminho para fazerem acordos e ele não faz. Estão habituados a que se adaptem ao que diz a imprensa... e ele não é pessoa para isso. Isso, que tem grandes vantagens, pode, por outro lado, causar mais irritação junto dos opositores..Dentro ou fora do partido? Mais dentro. Cá fora ele é mais apreciado..Ficou surpreendida com a votação do PSD nas legislativas? Era a votação de que eu estava à espera. Em Lisboa, por exemplo, conseguimos recuperar, tivemos uma candidata que revelou a preocupação de abrir o partido a outras pessoas. Acho que devemos ter muitas pessoas novas que pensam de uma forma diferente e tentar que as pessoas que estão sempre presentes sejam minoritárias..Nesse sentido, o que é que pode acontecer se o Dr. Rui Rio sair da liderança nas próximas diretas? Se ele sair, o partido corre o risco de voltar para trás? Pode correr esse risco, mas eu estou convencida de que vai ganhar. Pela forma como os últimos debates decorreram na campanha eleitoral, como estão a decorrer os debates agora na Assembleia, é o líder certo neste momento. Aliás, com o grupo parlamentar que tem, que é um grupo parlamentar com que ele se dá bem, a melhor oposição que podemos fazer é com o Dr. Rui Rio. Portanto, acho que os militantes vão considerar isso e que ele vai ganhar. Tenho algum receio se isso não acontecer. Também depende de como é que a pessoa que ganhasse iria tentar ser inclusiva, mas a tendência, infelizmente, no PSD não tem sido a da inclusão....Não era altura de haver uma mulher à frente do partido? Porque não? Exatamente e pela mesma razão. As listas dos congressos são feitas às três e às quatro da manhã, com os homens ali nos corredores a combinar, nos jantares quando estão juntos, é um mundo masculino. As mulheres não entram muito nesses acordos....Voltando à UE... Acha que é possível pôr as grandes plataformas, os grandes líderes tecnológicos do mundo, na ordem? O que é que significa pôr na ordem? Pagar impostos? Isso é possível. Legislar sobre a privacidade é importante e a Europa é líder nisso. Depois, ter algum cuidado para que um excesso de legislação de privacidade não vá contra a criatividade e a inovação, mas a Europa tem uma posição equilibrada e somos líderes nesses princípios. Gosto muito da Sra. Vestager e ela, neste momento, com a grande responsabilidade do digital vai com certeza resolver essa questão..Em relação ao 5G, como é que vê o fim da guerra EUA-China? Tenho pena que a Europa não consiga também estar nessa luta e não consiga ser também um fornecedor de tecnologia e seja só um utilizador. Devíamos fazer tudo para voltar a ganhar a liderança tecnológica. Ainda tenho esperança de que a Europa consiga recuperar e que países tão importantes do ponto de vista tecnológico se apercebam cada vez mais da importância do mundo digital e da sociedade de informação e não fiquem tão ligados a uma liderança tecnológica no passado..Quais são os efeitos do Brexit na área da ciência, uma vez que vamos ser amputados de uma parte importante da União? Espero que não seja amputada. Colaboramos no Horizonte 2020 e com o Horizonte Europa vai ser a mesma coisa. São os programas mais abertos do mundo... Vamos com certeza continuar a trabalhar com o Reino Unido..Mas a nível da circulação de cientistas... Haverá, de certeza, formas de chegar a um acordo. É preciso é que se resolva rapidamente para depois, caso a caso, para cada um dos setores se realizem as negociações e haja uma cooperação. Temos cooperação com a Suíça, Israel, Ucrânia, Tunísia....Como é que vê este crescimento de alguns extremismos, nomeadamente dentro do Parlamento Europeu? Sabe que esperava que fosse pior. Talvez tenha sido o único efeito positivo do Brexit - os grupos estão um pouco mais moderados do que eram no passado. Pelo menos, não são tão abertamente antieuropeus. Penso que lhes passou aquela ideia de fazer um "Brexit" para a Itália, um "Brexit" para a França. Perceberam que o Brexit é algo muito mau para os seus próprios países. Portanto, tirando os britânicos pró-Brexit que estão lá a fazer a sua campanha, noto, pelo menos na parte antieuropeia, muito menos ação do que anteriormente.