"Não me preocupam as tendências. O que me interessa é a qualidade que resiste à passagem do tempo." Estranha afirmação na boca de um designer de moda? Não, se falamos de Nuno Abelho, que, a partir de Elvas, trabalha a alta-costura como se a roupa fosse o palácio em que mora o corpo. O rigor é o de um arquiteto, os materiais dignos de um rei. Fazer quatro coleções num ano, para o cliente usar e deitar fora rapidamente, não lhe interessa. "A moda de qualidade é a verdadeira moda sustentável", afirma..Nascido em Lisboa, filho de alentejanos, mudou-se para Elvas aos 9 anos. Quando recorda as primeiras aspirações profissionais, vê-se sempre a desenhar a figura humana, mas aos 7, 8 anos "já tinha claro que queria ser estilista de moda". Estudou Estilismo Industrial no antigo CIVEC, o que o levou a fazer um percurso comum a muitos criadores portugueses da sua geração, trabalhando em empresas do norte, onde fez um pouco de tudo desde "vestuário técnico a sportswear". De regresso ao Alentejo, abriu um ateliê de roupa por medida, estabelecendo mais tarde uma parceria com o colega de faculdade e amigo Carlos Raimundo. A marca em nome próprio surgiria em 2009..Mas como é trabalhar em alta-costura no interior do país, em pleno Alto Alentejo? Nuno considera as vantagens e as desvantagens. Neste caso, o habitual preço da interioridade. "Nunca sou convidado para os grandes eventos de moda, que só têm em conta quem trabalha em Lisboa ou no Porto, mas, na verdade, hoje, com os meios de que dispomos, só está isolado quem quer, apesar de o Alentejo não ter propriamente uma tradição de indústria têxtil como tem o norte.".Estando em Elvas, a sua carteira de clientes inclui sobretudo mulheres espanholas, "dos 16 aos 80 e muitos anos, habitualmente muito preocupadas com os pormenores. São mulheres que vêm às provas com os sapatos, as joias e a maquilhagem que pensam usar com a peça que lhes estou a fazer, de modo a ouvirem a minha opinião e a terem uma visão do conjunto"..A este tipo de clientes responde Nuno com rigor e requinte. "Tenho sempre uma grande preocupação com o interior das peças. Nos casacos de tweed, por exemplo, opto sempre por forros de seda natural, não de poliéster, o que faz toda a diferença. O conforto dos clientes, mesmo aquele que só eles sabem que está lá, é muito importante para mim. Vestir as pessoas é um ato de grande sensualidade e intimidade.".Além do rigor posto nas estruturas invisíveis das peças, o estilista só trabalha materiais nobres. "Alta-costura não é um vestido de lantejoulas nem necessariamente um vestido comprido. Pode ser um belo vestido de algodão, por exemplo. Mas tenho uma preferência por sedas naturais, brocados, linho, lã, caxemira. Não compensa trabalhar num material barato porque o resultado final não é o mesmo." Não conseguindo trabalhar com fabricantes portugueses, que só vendem grandes quantidades e estão, por isso, vocacionadas para a indústria, opta por fornecedores espanhóis, franceses e ingleses, muitos deles fornecedores de griffes lendárias. "Já me aconteceu ter o mesmo tecido, noutra cor, que o Oscar de La Renta. Ou não poder comprar um outro porque a Carolina Herrera adquirira o exclusivo para a Europa.".Eternamente insatisfeito, Nuno é também um investigador, não apenas de novas formas de trabalhar mas também de pequenos tesouros. Adora correr lojas antigas, nomeadamente retrosarias, em busca de materiais que já ninguém faz - retalhos belíssimos ou botões que já são os derradeiros da sua "estirpe". No fundo, tudo o que faça uma peça diferente da outra. "Bato-me sempre pela originalidade. Fazendo roupa à medida é evidente que nunca haverá duas peças iguais, mas tem de haver mais do que medidas diferentes: um decote, um pormenor no forro, um bolso. Sabemos que estamos a trabalhar no sonho de alguém.".Avesso, o desfile retrospetivo de 21 anos de trabalho em moda que Nuno Abelho apresentou no Hotel Vila Galé de Elvas, a 16 de novembro, mostrou-nos homens em sumptuosos robes de seda Liberty e mulheres tocadas pela elegância de Grace Kelly ou pela majestade das princesas pintadas por Ticiano. Não por acaso, o estilista tem uma visão integrada da história da moda e da história da arte, disciplina que recentemente voltou a estudar na Universidade de Évora..Entre as suas grandes referências contam-se grandes estetas, à frente dos quais põe o francês Christian Lacroix. "Temos muitos pontos em comum. Somos homens do Sul [Lacroix é de Arles] e privilegiamos as cores fortes sobre cortes rigorosos." Mas seguem-se outros nomes maiores, como o basco Cristóbal Balenciaga ("pelo extremo cuidado com a forma"), Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy e, naturalmente, Coco Chanel. "Nunca estaremos suficientemente gratos a Chanel pelos caminhos que abriu. Ninguém deixou, na história da moda, uma marca tão inconfundível como ela.".Como Nuno, também Mademoiselle acreditava que a moda passa, o estilo permanece.