O Estado deve ou não contar com os melhores? Sim, claro. Mas a que preço? Como pode contar com os melhores, se por vezes tem de lhes cortar brutalmente o salário para que venham servir a coisa pública? O debate sobre o que ganham os políticos, ministros, deputados ou outros; os administradores de empresas públicas ou os reguladores não é de hoje, mas quando ressurge tem quase sempre um ponto em comum: é sempre servido com uma dose generosa de ideologia. Por vezes, outra de demagogia. .Isto a propósito da contratação de Hélder Rosalino para secretário-geral do Governo com um salário de 15.905 euros. Rosalino é um dos bons pensadores do Banco de Portugal, onde o Governo o foi requisitar, ainda que - como fez questão de esclarecer o governador Mário Centeno - o supervisor não lhe possa assegurar o pagamento do salário de origem (devido às regras do Eurossistema). .O seu caso não é único, nem é uma estreia, nem sequer é o primeiro a dar polémica, curiosamente também com um governo PSD (ainda que o atual executivo inclua o CDS).Quando Paulo Macedo - atual presidente da CGD e antigo ministro da Saúde de Passos Coelho - assumiu as funções de Inspetor-Geral dos Impostos, em 2004, muita tinta correu sobre o salário que iria ganhar. Isto porque Paulo Macedo era, na altura, gestor do BCP e sua passagem para o Fisco - a convite da ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite - implicava que iria ficar com um salário de 23 mil euros. .A transformação da máquina fiscal desde que Paulo Macedo assumiu o cargo foi radical. Sob a sua gestão, o Fisco começou a transformar-se num dos melhores e mais bem equipados serviços do Estado, capaz, na altura, de competir com privados na captação de talento nas empresas e nas universidades, com métricas de performance e um desempenho que até hoje assusta muitos cidadãos. A forma como a Autoridade Tributária é rápida e eficaz a cobrar começou também com ele. Se o consulado de Macedo no Fisco ajudou a uma transformação tão grande, um salário de 23 mil euros (na altura, bastante mais do que o do primeiro-ministro) foi demasiado? Alguns partidos dirão sempre que sim, porque o comparam com o salário do cidadão médio, não contabilizando o impacto que teve no funcionamento de um dos mais importantes instrumentos do Estado. Mas o mais estranho desta história nem é isso. É que subsista ainda alguma dúvida sobre se foi o BCP que pagou o salário de Paulo Macedo. E se já é polémico um salário alto do Inspetor-Geral dos Impostos, é completamente incompreensível que uma entidade privado lho pague..Uma última nota para a forma como o atual Governo permitiu o alto salário de Hélder Rosalino (que apenas entra em funções a 1 de janeiro): alterou há meia-dúzia de dias algumas alíneas da lei que regula a Secretaria-Geral do Governo, para que deixe de contar a regra de um salário base perto de 5 mil euros. Hélder Rosalino é um dos bons pensadores do Banco de Portugal, mas a Secretaria-Geral do Governo não tem, nem de perto, a importância do Fisco e este começo rima mesmo com tropeço. Vamos ver se fica de pé.